Coluna
Viagem na babagem

por Camila Aagesen

Viajar sozinha com uma IA, ainda é viajar sozinha?

Meu amigo Chat, será que vamos nos afastar de vez dos nossos amigos reais?

Vi o conteúdo de uma viajante gringa que recebeu um óculo com tecnologia como se a tela do seu celular estivesse já nos seus óculos. Ela era americana e só falava inglês. Passou 3 dias na Colômbia usando os óculos. Ao final da aventura o que ela disse que não teve nenhuma dificuldade, que o aparelho traduzia tudo que ela precisava, com o tradutor na tela, conseguia também ler do espanhol já traduzido, que podia ouvir música ou ligar o antirruídos quando estava muito barulhento. Assistir filmes no seu quarto de hotel, e se quisesse alguma informação de caminho ou turística, era só pedir pros óculos.

Do ponto de vista de tecnologia, incrível, do ponto de vista humano, péssimo.

Ela pontuou, muito bem aliás, que ela estava em outro país, mas poderia estar sentada no sofá de sua casa, sem falar com ninguém, sem precisar sair da zona de conforto para pedir informações, conhecer pessoas, experimentar os barulhos da cidade.

Ela trazia um ponto interessante pra gente pensar, no vídeo.

Se as Inteligências Artificias começam a substituir as interações humanas, e com menos atrito do que falar com um amigo, nas quais sempre temos momentos de ficarmosdesconfortáveis ou ter que só ouvi-lo falar pela quinta vez do mesmo assunto. Se a gente já conversa com as máquinas como se fossem pessoas 100% moldadas pra gente, que respondem tudo com entusiasmo, nunca cansadas, nunca batem de frente.

Será que vamos começar a ver pessoas viajando sozinhas, acompanhadas de IA, também?

Sem saber mais como interagir com o outro?

Claro que é uma ferramenta excelente para o dia a dia, assim como uma calculadora, mas será que não estamos apoiando um pouco demais nelas?

O tema dessa edição é sobre terapias e IA, e eu não sou terapeuta, mas sou paciente de terapia e posso falar desse lugar.

Eu sou sempre a favor de falar, falar das nossas angustias, problemas, pensamentos. Mesmo leiga, gosta da ideia da cura pela fala. Não sei se é para todas as pessoas, mas para mim com certeza é uma ferramenta importante.

Tirar o componente “humano”, no caso, o outro humano, da equação pode ser… perigoso.

Se estamos todos falando com a mesma máquina e apoiando emocionalmente nelas, como vai ficar nossa cabeça para conversar com uma pessoa com emoções depois? Uma pessoa que tem dias bons e ruins? Uma pessoa que não vai passar a mão na nossa cabeça ou não vai concordar com a gente?

No mesmo caso do “isolamento” na viagem através de uma IA, um par de óculos e um fone de ouvido, será que não seria de se pensar “a quem serve todo esse isolamento”? Por que já sabemos que nós somos serem sociais, e o social pressupõe-se comunidade, gente, barulho, toque, abrir mão de um pouco de espaço pro espaço do outro.

Há uns anos atrás eu tinha medo que as próximas gerações não iam querer viajar, para não se expor aos perigos e desconfortos de estarem fora de sua zona de conforto, de suas cidades, no conforto de casa.

Hoje já começa a me bater outro medo, o de que talvez a gente vá começar a viajar com as mesmas companhias: As Inteligências Artificiais. E a gente perca uma das maiores riquezas das viagens: conhecer a diversidade do mundo, e a nossa diversidade quando saímos do nosso “cercadinho conhecido”.

Camila Aagesen é viajante profissional, se encontrou na escrita e comunicação, virou contadora de histórias, gosta mais de frio do que de calor, apesar de adorar (curtas) temporadas em ilhas quentes. Com a alma aventureira se desfez de sua base em São Paulo capital em 2018 para conhecer lugares e histórias. @camilanomade

Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Propósito