Coluna
Barba, cabelo e bigode

por Ronnedy Paiva

Perguntar e Responder: o olhar que a IA não pode oferecer

Uma das falas mais comuns de se ouvirdos consultantes, especialmente nas primeiras sessões de terapia, é uma auto indagação: por onde eu começo? Essa pergunta, muitas vezes acompanhada do silêncio, coloca o questionador diante de si mesmo, levando-o a buscar asinformações mais relevanteseas palavras mais adequadas para iniciar o seuprocesso terapêutico.

Esse movimento, entretanto, não se desenvolve de maneira simples. O trajeto da terapia começa muito antes do primeiro encontro clínico, inicia-se no momento em que a pessoa se percebe necessitada de ajuda externa. Passa, então, pelo movimento de procurar um profissional e segue pela organização do tempo e dinheiro para, enfim, encontrar-se com o terapeuta e se auto indagar. Quando essa auto indagação não surge, outra entra em cena, desta vez partindo do terapeuta: o que te traz aqui? No fim das contas, o consultante precisa realizar um movimento semelhante ao que faria se tivesse se questionado sozinho.

Olhar para a própria história, mediado pela palavra e por questionamentos, é um desafio significativo, pois exige, entre outras coisas, coragem, presença e entrega. Algumas perguntas podem até parecer simples, mas têm o poder de movimentar, libertar e curar, justamente porque exigem elaborações profundas e significativas e não respostas imediatas. Na clínica, responder não é o mesmo que elaborar.

Para alguns homens, entretanto, fugir dessas perguntas parece um caminho que faz sentido, pois, paradoxalmente, elas também podem gerar sofrimento. Há dor no encontro com traumas, problemas e culpa. Fugir parece mais tranquilo, menos expositivo. Em outras palavras, muitos pensam estar agindo como “homens de verdade” ao enfrentar a dor desacompanhados.

Com a modernidade, isso se intensifica, pois diversos recursos foram criados para facilitar a vida. Um dos mais utilizados recentemente são as inteligências artificiais (IAs). Por meio delas, buscam-se orientações, diagnósticos e informações dos mais variados tipos. As pessoas têm recorrido a essa tecnologia para entender, por exemplo, laudos médicos, sintomas, medicações, buscar alternativas às orientações profissionais e, inclusive, realizar consultas psicológicas.

Consultar e confiar cegamente em informações geradas por IA pode, pouco a pouco, minar a confiança nos especialistas que lidam diariamente com as queixas humanas, em favor de informações produzidas por uma máquina. Além disso, o contato humano tende a ser inibido, pois a interação mediada por tecnologia se apresenta como menos ameaçadora do que falar com outro ser humano. Evita-se, assim, o desconforto do encontro, o risco de ser visto em sua fragilidade e o compromisso de, semanalmente, tocar em “feridas” que exigem tempo e implicação.

Nesse sentido, a terapia mediada por IA, em algumas situações, é buscada não por ser melhor, mas por doer menos, uma vez que o “sofredor” não é visto, de fato, em sua fragilidade. Soma-se a isso a possibilidade de reformular constantemente a interação com a IA, de modo a encontrar respostas que gerem menos sofrimento e não precisem de investimento monetário e logístico. Dói olhar, falar e trabalhar as próprias dores; a longo prazo, porém, dói ainda mais ignorá-las.

Na era atual, carregada pela pressa e pela fuga do sofrimento, poucos estão dispostos a dedicar tempo ao trabalho mental que a dor exige. Assim, diante de uma masculinidade mal construída, na qual se aprende que o homem deve resolver tudo sozinho, a busca por meios que diminuam o sofrimento sem exigir um olhar profundo torna-se uma saída, e as IAs acabam se encaixando perfeitamente nessa lógica.

A terapia, por sua vez, não oferece respostas prontas nem soluções imediatas. Ela se apresenta como um espaço de encontro, no qual o sofrimento pode ser nomeado, sustentado e elaborado com tempo e presença. Em vez de atalhos, a terapia convida à coragem de olhar para o que dói e de sustentar perguntas até que transformações genuínas possam emergir no encontro humano, um olhar que nenhuma IA é capaz de oferecer.

 

Ronnedy Paiva é psicólogo, especialista em Psicologia Existencial, Humanista e Fenomenológica e Pós-graduando em Logoterapia e Análise Existencial. Natural de Londrina-PR, gosta de futebol, livros, estudos, conversas e comida boa! Escreve sobre existência e masculinidade, acreditando que o diálogo pode transformar as relações existentes consigo, com o outro e com o mundo. @ronnedypaiva

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