Coluna
Conexões sociais

por Arthur Arruda

O ódio racial do outro e a negação do racismo

No início de novembro assistimos a final da Copa Libertadores da América entre Fluminense e Boca Juniors, confronto vencido pela equipe carioca. Para além das quatro linhas, uma sentença, chamou a atenção e alimentou a rivalidade nas redes sociais, ruas, mesas dos bares, resenhas. ‘O argentino é racista’ foi a expressão usada por parte da torcida tricolor e por parte dos que decidiram esquecer as rivalidades locais e tomar partido no jogo final do torneio continental.

 

Não se pretende aqui negar as manifestações racistas de alguns torcedores do Boca Juniors, ao longo do torneio, longe disso, mas trazer uma reflexão sobre uma enérgica indignação demonstrada pelos brasileiros quando atos de racismo são praticados pelo outro/estrangeiro, cometidos em uma arquibancada de futebol, ao se fazer gestos imitando um macaco, ou em uma abordagem violenta da polícia, a exemplo do caso que levou a morte o segurança negro norte-americano George Floyd, em 2020, comovendo milhares de brasileiros nas redes sociais e os mobilizando em protestos orientados por uma onda antirracista.

 

No dia a dia da vida social brasileira são recorrentes as manifestações de racismo. Essas ocupam quase que diariamente as telas das TVs e dos jornais apresentando-se de maneira explicita, escancarada, como nas ações violentas da polícia e nos casos de injúria racial. E, também, de maneira implícita, silenciosa, como nos olhares, que constantemente põem o negro em suspeição, favorecendo as mortes por ‘equívoco’. Todavia, nem de longe, nós brasileiros, seja como indivíduo, seja como sociedade, somos solidários ou nos comovemos com esses casos.

 

A indignação do brasileiro com os casos de racismo, fora do seu entorno, constrói uma imagem do outro de maneira conflituosa, em que a legitimação da nossa identidade passa pela desqualificação da outra, isto é, existe uma crença em nossa sociedade de que é lá fora, no outro, que existe o ódio a população negra e não em nós ou na nossa aparente democracia racial. O modo como o racismo à brasileira foi construído faz com que a população não enxergue a realidade gritante que se encontra diante dos seus olhos.

É a negação, portanto, uma das sustentações para a perpetuação do racismo em nosso país. O não reconhecimento de que somos uma sociedade racista naturaliza as diversas formas de violência contra a população negra, em vista disso, é como se o problema não fosse real e não existisse a necessidade de mudanças no interior da nossa sociedade. É fundamental, portanto, e isso é consenso entre os estudiosos da desigualdade racial, que o ponto de partida na luta contra o racismo faça-se pela admissão de que somos, sim, racistas. Esse reconhecimento é essencial para a desmistificação de um pacto social, que rege as relações raciais no Brasil, corroboradas no mito da democracia racial.

 

Arthur Arruda é psicólogo pela UEPB tem interesse e experiência nos seguintes temas: psicologia clínica, social, social comunitária, saúde mental. É nômade digital, apaixonado por futebol e amante da MPB. @arthurmarcell_

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