Beatriz França
A Busca
O ser humano é aquele que no percurso da sua vida, está à procura de algo. Possuímos um desejo que nos motiva a sair do lugar. Há no homem uma força, e ela aponta para um sentido. Isso Frankl chama de vontade de sentido. E durante esse caminho para encontrar o que dá propósito à existência, o homem pode ser impedido, frustrado em seu existir, e sem nada que lhe explique o por quê de estar aqui, acaba sentindo um vazio em si. O vazio incomoda, tensiona, traz um conflito entre o que somos agora e o que queremos e podemos ser – isso é a noodinâmica. E ela vai alimentar a vontade para buscar algo, o sentido, que pode ser uma obra, experiência ou atitude, encontrado por meio dos valores.
No trilhar do caminho
O homem perdeu algo. Os instintos e as tradições não lhe dizem mais o que fazer. O homem agora mal sabe o que realmente quer, pois sua capacidade de encontrar o sentido único de cada situação, sua consciência, atrofiou.
A voz da consciência continua a gritar, mas ninguém, e nem ele mesmo consegue escutar. Cego e surdo para o sentido, acaba por aceitar reproduzir o que as pessoas fazem (conformismo) ou fazer o que os outros querem que ele faça (totalitarismo).
O mundo
A era a qual nos encontramos não vem possibilitando espaços para a existência ser pensada, questionada, refletida. Tudo é rápido, as perguntas têm suas respostas, esperar não se faz mais necessário. Os instintos, impulsos, traumas, genética, cultura e educação explicam tudo o que o homem é. As perguntas estão sendo respondidas, nem é preciso mais usar a reflexão, o pensamento crítico, já que as respostas estão aí. Assim, perdemos nossa paciência com nossa própria existência, e é agoniante desenvolvê-la, não? É mais fácil, mais tranquilo, prazeroso ter a resposta do que ir atrás dela e se tornar a resposta para as perguntas que a existência nos faz.
A autenticidade
Logo, deixamos de ser autênticos quando aceitamos permanecer no modo de existir que não condiz com nossa essência, o noético – a dimensão genuinamente humana, onde estão nossas escolhas, liberdade, responsabilidade, criatividade, espiritualidade, vontade de sentido. O modo inautêntico faz parte da vida, porque ele forma os padrões pelos quais vivemos no dia a dia, traz explicações sobre o funcionamento da sociedade e, para conviver nesse meio, nos comportamos, falamos e valorizamos como algo é dito, então, temos nossos momentos de agir como um robô ou papagaio, só repetindo o que dizem ou fazem. O que nos prejudica é quando não nos distanciamos desse modo de existir, apenas continuamos dessa forma e fugimos da tensão que está fora do padrão social. Assim, ficamos rígidos, inflexíveis, impotentes, não conseguimos lidar com nosso corpo (dimensão física/biológica) e nem com nossa mente (dimensão psicológica/anímica), somos sempre levado pelas ondas e ventos deterministas dos hormônios, sofrimentos psicológicos, emoções, sentimentos, impulsos.
Uma possibilidade
Para tornar-se quem se é, autêntico, uma expressão real do noético, consciente de si, com domínio de seus recursos internos, a Logoarte é uma possibilidade. Afinal, a arte estava lá desde o início do que hoje chamamos de sociedade. Para saber do mundo, de si e decidir o que poderia fazer, a arte era o primeiro recurso, desde à pintura, música e desenhos. Ela está lá, na essência de quem é o homem, o criar junto às as decisões pessoais de vontade, intencionalidade, interesse prático e artístico, religiosidade, senso ético e compreensão do valor. Para despertar o que está adormecido pela vida automática – imersa na tecnologia, em um modo de existir inautêntico – que é o que nos torna autênticos, o noético, ferramentas noéticas precisam ser utilizadas. Já que o homem não sabe o que quer e quem é, vamos apresentá-lo a si mesmo.
Através da Logoarte, criada por Marianne Prado, ao unir a Logoterapia, a psicoterapia por meio do sentido da vida e a terapia artística, a arte pode ser uma expressão do sentido. Por meio dela, como Rollo May disse, convidamos a pessoa a experimentar, descobrir o que ainda não descobriram, pela coragem de criar. Com auxílio das técnicas da Logoterapia, a Logoarte acontece, podendo ser um desenho de formas com giz de cera ou lápis macio, pintura molhado no molhado com tinta aquarelável, pintura em papel seco e modelagem com argila. Seguindo um princípio da fenomenologia, nela não existe juízo de valor, quem dará significado e nomes à sua criação é o próprio criador da obra, mas para isso, não é um requisito ser um pintor, escultor, Mestre ou Doutor em artes. Só precisa ser humano e usar da sua potencialidade, a criatividade. A arte é uma forma de expressão, de libertação de algo muito íntimo de cada ser, por meio dela é possível acessar conteúdos esquecidos, inconscientes, angústias, mas também alegrias. Logoarte é buscar sentido em que acredita, e que com suas próprias mãos construiu.
O que você gostaria de construir, desenhar ou pintar? Qual registro de sua essência você quer neste mundo e para os seus deixar? Lembre-se: não se encaixar no padrão que a sociedade nos dá pode ser uma oportunidade de você criar algo único e irrepetível, de ser fiel aos seus valores e sentidos, sua existência. Não cale-a, deixe-a falar, criar.