Vitrines que mudam o tempo todo, recomendações que parecem adivinhar desejos e a rápida circulação de tendências fazem com que, muitas vezes, surja a sensação de que é preciso estar sempre atualizado. Nesse cenário, o consumo deixa de ser apenas uma prática cotidiana e passa a funcionar também como uma forma de reconhecimento. Aquilo que escolho comprar, usar e mostrar acaba dizendo algo sobre mim, ainda que nem sempre eu perceba isso de imediato.
Foi nesse contexto que me deparei com o Project Pan, uma tendência que ganhou força nas redes sociais, especialmente entre criadores de conteúdo de beleza e estilo de vida. A proposta é simples: usar até o fim os produtos que já se tem antes de comprar novos. O que aparece, à primeira vista, como um desafio ou uma “trend” compartilhável, começa a revelar, quando observado com mais atenção, um questionamento importante sobre nossos hábitos de consumo.
As ideias de Pierre Bourdieu ajudam a dar nome a esse incômodo. O sociólogo francês desenvolveu a teoria dos Capitais, que neste contexto, pode nos ajudar a entender que nossas escolhas não são tão individuais quanto parecem. O capital econômico define o que posso comprar, o capital cultural orienta meus gostos e preferências, e o capital social aparece na forma como sou vista pelos outros. Perceber isso muda a forma como enxergo o consumo. Não se trata apenas de utilidade, mas de posicionamento.
Muitas vezes, não estamos comprando só um objeto e sim buscando uma sensação, uma imagem, uma validação. Certos produtos carregam significados que vão além do uso. Eles comunicam pertencimento, estilo, adequação. E, sem perceber, passamos a consumir também para sustentar essa comunicação.
O problema é que esse reconhecimento tem um preço que não é só financeiro. Existe um desgaste mais silencioso, ligado à sensação constante de insuficiência. Algo que parecia essencial há pouco tempo rapidamente perde o valor. O desejo se reorganiza e aponta para o próximo item, para a próxima versão, para aquilo que ainda falta. E assim o ciclo continua. O Project Pan entra justamente como uma pausa nesse movimento. Quando decidimos usar o que já temos, algo muda na forma como nos relacionamos com o consumo. Não é uma grande ruptura, mas um pequeno deslocamento.
Em vez de responder imediatamente ao impulso de comprar, começamos a prestar mais atenção no que já está conosco. Isso nos obriga a encarar excessos, hábitos e até algumas frustrações.
Esse processo nem sempre é confortável. Olhar para o que foi acumulado revela mais do que objetos parados. Também expõe expectativas, impulsos e, em alguns casos, tentativas de compensar algo que não está bem definido. Comprar, muitas vezes, vem acompanhado da ideia de mudança, como se um novo item pudesse reorganizar outras áreas da vida. Na prática, essa sensação costuma durar pouco.
Em um contexto em que parece cada vez mais importante mostrar algo o tempo todo, questionar essa lógica, mesmo que de forma discreta, já faz diferença. O Project Pan não resolve todas as contradições do consumo, mas nos faz enxergá-las com mais clareza.
No fim, a pergunta que fica é simples, mas incômoda. O reconhecimento que buscamos por meio do consumo realmente vale o preço que pagamos por ele?
Priscila Vogt é psicóloga clínica especialista em Logoterapia. Natural de Curitiba/PR, atualmente reside em Florianópolis, é amante de praia, sol e natureza. Se apaixonou por ajudar mulheres a encontrarem seu lugar no mundo e resgatarem sua autoconfiança. Hoje atua no On Line, mas também tem consultório na Ilha da Magia. @psipriscillavogt