Coluna
Barba, cabelo e bigode

por Ronnedy Paiva

O consumo de ideias e a forma como isso pode moldar a masculinidade

Muito provavelmente você já deve ter ouvido que somos a média das pessoas com quem andamos. Essa famosa frase, geralmente utilizada para orientar as pessoas a refletirem se estão “andando” com quem as impulsiona, pode até ser verdadeira, mas existe outro fator que também compõe quem somos: aquilo que consumimos como conteúdo de informação e orientação, especialmente na internet.

Refletir sobre esses conteúdos é muito importante para compreender a forma como pensamos e como estamos enxergando o mundo. Em uma sociedade em que há liberdade para se dizer tudo e mais um pouco na internet, sustentada por uma falsa sensação de proteção proporcionada pelas telas, permite-se que atrocidades sejam ditas sem punição. Isso ocorre porque sempre haverá alguém disposto a vender uma pseudoverdade, mascarada de cuidado ou preocupação com a sociedade, para quem quiser ouvir.

Como exemplo, podemos citar os comentários realizados por grupos conhecidos como “Red Pills”, homens que se propõem a “despertar” as pessoas para uma realidade que consideram dolorosa, porém verdadeira. No entanto, frequentemente difundem ideias marcadas por ódio contra mulheres, tratando-as como inimigas, além de normalizar a violência em suas diversas formas. Esse tipo de conteúdo demonstra como uma narrativa enviesada ganha visibilidade quando há pessoas suscetíveis a abraçá-la e propagá-la. Agora, imagine como essas ideias podem moldar o conceito de masculinidade.

Existe uma concepção muito interessante dentro da Terapia Cognitivo-Comportamental, chamada de “vieses cognitivos”. Segundo autores dessa abordagem, os vieses são como “atalhos” utilizados pelo cérebro na tomada de decisões que, embora úteis em muitos contextos, podem surgir ou se desenvolver a partir de distorções. Dentre esses vieses, destaco o viés de confirmação, que consiste na tendência de valorizar informações que confirmem uma ideia pré-concebida, ignorando outras evidências disponíveis.

Dentro dessa ideia, um exemplo de viés de confirmação pode ser observado nos conteúdos “Red Pills”. Ao acreditar que homens são superiores às mulheres, o indivíduo passa a consumir, de forma seletiva, vídeos, artigos e opiniões que reforçam essa ideia, fortalecendo a crença inicial, enquanto conteúdos contrários são ignorados ou refutados, mesmo que de maneira indireta.

Isso pode levar homens a consolidarem visões rígidas e limitadas sobre si mesmos e sobre as mulheres, dificultando a construção de relações mais saudáveis e igualitárias. Refletir sobre isso torna-se ainda mais complexo no contexto digital.

O funcionamento da internet é orientado por algoritmos, que passam a apresentar uma infinidade de conteúdos semelhantes, mesmo sem uma busca ativa, baseando-se naquilo que identificam como de interesse do usuário e reforçando a ideia inicial. Assim, uma teia de informações passa a cercar o indivíduo sem que ele se dê conta, moldando sua forma de se perceber, de perceber o outro e de se orientar no mundo.

O que consumimos tem o poder de nos orientar, muitas vezes, de forma inimaginável. No entanto, o ser humano possui a capacidade de se opor a essas influências ou vieses cognitivos, como afirma Viktor Frankl, e isso precisa ser destacado. Ao adotar uma postura que se contrapõe ao que a maioria impõe, seja por meio do autoquestionamento, da consciência dos próprios valores ou da capacidade de autotranscendência, a pessoa conserva a possibilidade de escolher sua atitude diante do que lhe é apresentado. Essa ideia é especialmente relevante no contexto atual, em que, embora sejamos impactados por algoritmos e ideologias, não estamos determinados por eles, podendo nos orientar por nossa liberdade e responsabilidade. Assim, a masculinidade pode ser construída de forma consciente, permitindo ao indivíduo se afastar de imposições e se aproximar de uma forma de ser mais autêntica e alinhada aos seus valores.

Assim, como observado, não somos formados apenas pelas pessoas com quem convivemos, mas também pelos conteúdos que consumimos e pela forma como os interpretamos. No entanto, acima de tudo, é a maneira como nos posicionamos e decidimos diante disso que, de fato, nos define. Por isso, a pergunta para encerrar essa reflexão é: as pessoas com quem você tem andado e os conteúdos que você tem consumido dialogam com quem você é, com os valores que lhe são importantes e com a pessoa que você deseja ser no mundo? Caso não dialogue, vale repensar a forma como você tem construído sua masculinidade, alinhando-a aos seus valores, em vez de apenas reproduzir aquilo que lhe foi apresentado.

Ronnedy Paiva é psicólogo, especialista em Psicologia Existencial, Humanista e Fenomenológica e Pós-graduando em Logoterapia e Análise Existencial. Natural de Londrina-PR, gosta de futebol, livros, estudos, conversas e comida boa! Escreve sobre existência e masculinidade, acreditando que o diálogo pode transformar as relações existentes consigo, com o outro e com o mundo. @ronnedypaiva

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