Vivemos em uma sociedade marcada pelo padrão de consumo sendo confundido com qualidade de vida e plenitude existencial, onde todos precisam consumir para serem considerados dignos de serem. O ser e o ter são intrinsicamente ligados quando falamos na ideia social de ser um sucesso. Só tem sucesso quem tem dinheiro, quem compra símbolos desse sucesso, afinal de contas somos seres que buscam em símbolos um significado para entender a nossa realidade material. O dinheiro é o símbolo mais reconhecido em todas as sociedades contemporâneas, então é natural que ele seja o símbolo que buscamos para validação social.
A questão não está em como o capitalismo usa da captura do nosso desejo para nos deixar cada vez mais imerso em um moedor de carne que precisa triturar a maior parte de nós para funcionar, isso é assunto para outro dia, a questão aqui é como usamos o consumismo para preencher vazios profundos que temos um completo desinteresse de entender, visto que entender demanda esforço e se exige esforço reflexivo dispende uma energia que não queremos gastar, estamos cansados demais para isso. Estamos produzindo o tempo inteiro e não temos tempo para olhar para nós mesmos, para entender as razões de fazer o que fazemos, para parar e refletir sobre quem somos, sobre os traumas que carregamos e o que faremos com eles. É preferível encher a casa de cacareco que nos darão uma satisfação temporária. O consumismo age como uma potente onda de ideação de sucesso, onde através do consumo a pessoa se sente parte de algo maior, de uma sociedade que vê o sucesso pelo consumo, logo, se estou consumindo é por ter algum sucesso, correto?
O problema desse pensamento é que o consumo pelo consumo, ou seja, aquele onde consumir é um fim em si mesmo, sempre irá exigir mais e mais, não existe um limite a ser atingido, uma satisfação onde a pessoa pensa “Ok, consumi o suficiente, estou completo”. Pelo contrário, no consumismo a ideia é a de eterna incompletude, de que o ser humano se valida e é validado pela última tendência de compra e elas são sempre renováveis. O último modelo de celular, a última roupa da moda, o copo térmico que custa 30% do salário mínimo para deixar sua água ou seu chá quentinho por 24h, a última edição daquele livro de capa bonita e profundidade e densidade de um pires de ar. Você nunca na sua vida será suficiente em um sistema que precisa que você compre o tempo inteiro.
Que se sustenta na base da imbecilidade coletiva do prazer instantâneo da compra sem crítica. E se você não compra o suficiente (e nunca comprará) sempre será alguém insuficiente como ser humano. Esse é o X da questão nessa insalubridade de mundo que vivemos.Afinal de contas, o que é o consumismo se não uma forma de deixar de pensar no ser e pensar no ter? De uma facilidade existencial onde quem pensa sofre e quem consome fica alegrinho no seu onanismo que oferece respostas fáceis e rápidas? Meu amigo Byung-Chul Han fala sobre como estamos sempre presos em uma lógica e produção de nós mesmos e uma desaceleração reflexiva e o consumismo é o reflexo desse empobrecimento da capacidade de pensar criticamente. Quem sou eu? Qual o motivo de realizar o que realizo? De não fazer o que não faço? De achar bonito um padrão específico de características? De querer o que quero para meu futuro? OLHA SÓ, SAIU O NOVO IPHONE. O que eu estava pensando mesmo? Não devia ser importante mesmo.
No fim das contas a ideia central é docilização, domesticação, castração do pensamento crítico. Quem está sempre pensando em consumir não está pensando em fazer revolução de nada, quem vive correndo atrás da próxima trend não pensa nos motivos de crianças serem bombardeadas todos os dias ao redor do mundo, quem quer viver uma vida pequena de grande acúmulo de capital não está interessado na beleza de ter o suficiente.
Mas e por aí, já tem o último item da moda ou ainda está preocupado com idiotices do tipo ser alguém que preste, ter consciência de classe ou não ser um completo ser humano vazio de questionamentos? As vezes é bom ser idiota quando o mundo considera sábio se destruir produzindo para ter um monte de badulaque imbecil. Vai saber, sou meio idiota mesmo.
Luiz Guedes é psicólogo logoterapeuta, especialista em Logoterapia e Psicologia Fenomenológica-Existencial, mestre em Psicologia e Saúde pela UFCSPA, gosta de nerdice e acredita que a construção humana e social passa por consciência de classe. Também adora dogs de roupinha e so quer sossego na vida. @diariodosentido