Alguns debates que circularam recentemente nas redes me chamaram a atenção. Médicos discutindo se uma bolsa de grife aumenta a percepção de valor do consultório. Advogados sendo criticados por usarem transporte público para ir a uma audiência ou ao encontro com um cliente. Profissionais comprando um MacBook falso para compor um ensaio de fotos. À primeira vista, tudo isso pode parecer apenas exagero. Mas me parece que esses episódios revelam algo mais profundo sobre a forma como temos associado consumo, pertencimento e credibilidade.
No fundo, não estamos falando apenas de objetos. Estamos falando dos códigos que aprendemos a ler como sinais de valor. Sabemos que imagem comunica. Cores, roupas, acessórios, ambientes e escolhas visuais transmitem mensagens. A forma como alguém se apresenta pode sugerir organização, refinamento, autoridade ou proximidade. O problema começa quando essa mensagem passa a ser tratada como prova de capacitação profissional e, mais do que isso, como se pudesse dizer, sozinha, quem aquele profissional é.
É aí que o consumo deixa de ser apenas escolha e passa a funcionar como atalho de legitimidade. Como se, para ser reconhecido como um bom profissional, não bastasse estudar, trabalhar bem, ter ética, repertório e consistência. Como se também fosse preciso caber numa imagem previamente aceita do que vale a pena contratar, ouvir ou respeitar.
Talvez uma das distorções mais inquietantes do nosso tempo esteja justamente aí: a substituição silenciosa do ser pelo parecer. Em vez de a imagem acompanhar a competência, ela passa a antecipá-la. Em vez de a forma apresentar o conteúdo, ela começa a disputar espaço com ele. Aos poucos, parecer preparado, parecer refinado e parecer bem-sucedido produz mais reconhecimento imediato do que ser, de fato, alguém qualificado, ético e comprometido com o que faz.
Essa lógica também tem relação com pertencimento social. Em muitos contextos, consumir certos símbolos não é apenas uma tentativa de impressionar. É uma forma de reduzir estranhamentos, de circular com menos suspeita, de parecer familiar àquele ambiente. Em outras palavras, não se trata só de status. Trata-se de acesso. Certos sinais de consumo funcionam como senha de entrada para ambientes que já definiram, de antemão, qual é a aparência aceitável de alguém confiável.
Talvez por isso tantas pessoas sintam que precisam montar uma persona profissional visualmente convincente. Não exatamente para expressar quem são, mas para atender ao que se espera de alguém que presta um serviço de valor. E essa expectativa costuma ser estreita. Ela sugere que o médico deve aparentar luxo, que o advogado deve aparentar riqueza, que o profissional competente deve exibir sinais visíveis de sucesso. Como se a estética pudesse poupar o outro do trabalho de avaliar criticamente o que realmente importa. O mais inquietante é que essa lógica desloca o centro do reconhecimento. Em vez de olharmos para a formação, para a postura, para a ética e para a qualidade do trabalho, passamos a olhar para a embalagem. A roupa, o notebook, o consultório, o carro, a foto, o enquadramento. Aos poucos, a aparência deixa de acompanhar o trabalho e passa a concorrer com ele. Não se trata de negar que apresentação importa. Importa. Toda presença comunica alguma coisa. Mas uma estética pode sugerir repertório, intenção e posicionamento; ela não dá conta, sozinha, de atestar caráter, preparo ou competência. Quando passamos a exigir que o profissional se encaixe numa caixa visual para ser levado a sério, empobrecemos nossa forma de reconhecer valor. E talvez esse seja o ponto mais preocupante. Uma sociedade excessivamente acomodada em previsibilidades — como a de que um médico precisa usar grife ou a de que um advogado precisa parecer rico — se torna menos crítica. Ela desaprende a interrogar seus próprios critérios e passa a confiar, de forma automática, em sinais prontos de prestígio. E uma sociedade menos crítica também se torna mais consumista, porque passa a depender cada vez mais de símbolos externos para decidir quem admira, em quem confia e o que considera valioso.
No fim, o problema não está apenas no consumo. Está na fragilidade de um olhar que confunde aparência de valor com valor de fato. E, quando o parecer começa a valer mais do que o ser, não empobrecemos apenas nossa leitura sobre os profissionais. Empobrecemos também nossa própria capacidade crítica
Flávia Costa é psicóloga clínica, logoterapeuta em formação e mentora de carreiras. Natural do Rio de Janeiro, tem como missão disseminar a aplicabilidade da Psicologia no dia a dia. @flaviacpsi