Coluna
Viagem na babagem

por Camila Aagesen

“Tá todo mundo viajando! Tá na moda!” – Ainda bem.

Será que viajar virou mais uma coisa muito comprada pelo nosso consumismo?

Acho que sim né?

Claro que tem gente que viaja para realizar um sonho de conhecer algum lugar ou alguém, ou ainda tem propósitos diferentes. Mas quantas vezes eu não ouvi – sendo da bolha de São Paulo, Capital – que uma pessoa bem sucedida é alguém que tem casa própria, carro próprio e viaja uma ou duas vezes por ano?

Virou uma coisa, um sinal de status, mais uma prova social de que a pessoa deu certo.

Nessa lógica não importa muito pra onde você vá, desde que prove que foi. Hum….ok

Se viajar também virou coisa a ser consumida, é só embalar como um produto: todo mundo indo para Paris, eu preciso ir também, todo mundo indo para Buenos Aires, preciso ir também….e assim vai.

Podemos pensar sobre: o que isso faz com o lugar visitado? O que isso faz com o meio ambiente? E com as finanças pessoais de quem vai? (acho que são pontos válidos)

E mais, se a lógica é: mais lugares, mais viagens, mais fotos para provar….próximo. Estamos realmente vivendo a experiência de viajar?

Minha resposta pessoal é: sim

Odeio a cagação de regra de “como é viajar de verdade”.

Entendo que o consumismo é o consumo excessivo de alguma coisa, e entendo que pode vir com partes bem ruins. Mas de tantas coisas que consumimos, essa não me parece ser a pior. A pessoa vai ter experiências, sair um pouco da sua bolha, ter contato com outras culturas. Dos males do consumismo um dos menores.

Entre ser consumista e gastar muito dinheiro com bolsas de luxo ou comprar viagens, bem, eu escolheria para qualquer pessoa: viagens.

Gosto da ideia de “escolha suas drogas” – e claro que não estou fazendo apologia à drogas, o que quero dizer é: se é um mal do nosso tempo, se vamos acabar sendo influenciados a tomar decisões “não ideais”, faça isso conscientemente, e escolha a que te vai fazer bem (ou menos mal).

Acho injusto tratarmos problemas coletivos como responsabilidade do indivíduo. Se vivemos em sociedade, se status são importantes para onde você vai ser colocado profissionalmente e social, se são criadas ferramentas todos os dias para nos viciar, nos fazer comprar, nos fazer tomar atitudes.

Passar a vida evitando, se alienando ou lutando contra é muito cansativo – e muito improdutivo. Talvez seria mais interessante entender onde estamos inseridos, entender o que estão nos vendendo e porquê, e tomar as melhores decisões para a gente, para a vida que levamos ou queremos levar.

Eu aprendia sobre consumismo na quarta série do ensino fundamental. Isso foi em 1995. Não é uma novidade, não começou a destruir o meio ambiente agora. Ele só vai migrando do que está na moda para consumir. E se dessa vez o produto “hypado” são viagens…

Que seja. E que bom que seja. Que o próximo sejam cursos acadêmicos junto com alimentação saudável.

Claro que eu entendo que consumismo não é uma prática legal pra gente como sociedade, como planeta e meio ambiente. Entendo os impactos que turismo em massa provoca. Mas vale pensar também em quais massas e porque virou um problema agora né? Porque a população mundial aumentou ou porque pessoas de países que não viajavam começaram a viajar? As viagens não começaram agora no século XXI. Minha avó fez “Au Pair” (intercâmbio cultural onde jovens moram com uma família anfitriã no exterior, cuidando das crianças e ajudando em tarefas domésticas leves. Em troca, recebem hospedagem, alimentação) na década de 50.

Como uma pessoa que viaja muito na vida posso afirmar que as pessoas mais interessantes que eu conheço são as que se engajam em aumentar o repertório, que falam de outros lugares, que usam experiencias com outras populações para formar pensamos críticos, que gastam tempo e dinheiro vivendo coisas diferentes, lendo coisas diferentes, comendo, conhecendo o diferente. Sim, para tudo isso você vai precisar de dinheiro e tempo. Mas para comprar um carro esportivo chamativo, também. E qual das duas coisas te deixariam um ser humano mais interessante?

Camila Aagesen é viajante profissional, se encontrou na escrita e comunicação, virou contadora de histórias, gosta mais de frio do que de calor, apesar de adorar (curtas) temporadas em ilhas quentes. Com a alma aventureira se desfez de sua base em São Paulo capital em 2018 para conhecer lugares e histórias. @camilanomade

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