Coluna
Universo feminino

por Priscilla Vogt

IA e o oráculo moderno

Com o crescente uso da Inteligência Artificial para diversas finalidades, a impressão que tenho é que as mulheres, em especial, passaram a buscar o ChatGPT (e outros chatbots) quase como um oráculo que tudo sabe e que apresentará a resposta mágica para seus problemas e conflitos existenciais. Não que algumas delas também não façam isso conosco, psicólogas, mas pelo menos acabamos rapidamente com essa fantasia.

A questão é que, desde que o mundo é mundo, as pessoas buscam meios que lhes ofereçam respostas instantâneas, receitas prontas, métodos que funcionem, simpatias. Buscam no tarô, na astrologia, no mapa astral e assim por diante algo que revele verdades desconhecidas sobre si mesmas e encurte o caminho da autoanálise e do autoconhecimento. A diferença é que hoje esses meios se tornaram virtuais e muito mais acessíveis. Não queremos mais pensar; queremos respostas.

Quando terceirizamos excessivamente as respostas sobre quem somos, o que sentimos e o que devemos fazer, algo importante se perde: a confiança na própria experiência subjetiva e na capacidade de se ouvir e pensar. O risco não está em utilizar a IA como ferramenta de reflexão, mas em atribuir a ela um saber absoluto sobre a vida — um saber que, na verdade, só pode ser construído na relação consigo mesma.

No processo de amadurecimento e crescimento pessoal, explorar ao máximo nossa capacidade de olhar para dentro, em busca de maior compreensão e autoconhecimento, é o que nos ajuda a desenvolver a inteligência intrapessoal, tão necessária. Pensar, refletir, fazer esforço mental, colocar a “cabecinha” para trabalhar faz parte desse processo. Quando terceirizamos esse movimento, corremos o risco de perder aquilo que nos torna únicos enquanto seres humanos: a capacidade de pensar.

Muitas vezes não sabemos as respostas para os dilemas existenciais que surgem ao longo do caminho, e isso exige tempo e processo. É assim que vamos afinando nossa consciência e nossa maturidade emocional. Faz parte. Quando tentamos “encurtar” esse percurso, empobrecemos nossa jornada existencial, pois abrimos mão de uma parte fundamental do processo: o confronto consigo mesma e com o “não saber”.

Deparar-se com o “não saber” é desconfortável, porém, natural. Exige presença, paciência e coragem para sustentar perguntas sem respostas imediatas. Ainda assim, é nesse espaço de incerteza que algo genuíno pode emergir. Quando evitamos esse confronto, abrimos mão da possibilidade de amadurecimento e de uma relação mais honesta conosco mesmas.

Talvez a pergunta mais importante, em tempos de Inteligência Artificial, não seja o que a IA pode responder por nós, mas o que estamos deixando de escutar quando pedimos que ela pense, sinta e decida em nosso lugar. Afinal, quando terceirizamos nossas perguntas mais profundas, o risco não é errar a resposta — é nunca chegar a formular a pergunta certa.

Priscila Vogt é psicóloga clínica especialista em Logoterapia. Natural de Curitiba/PR, atualmente reside em Florianópolis, é amante de praia, sol e natureza. Se apaixonou por ajudar mulheres a encontrarem seu lugar no mundo e resgatarem sua autoconfiança. Hoje atua no On Line, mas também tem consultório na Ilha da Magia. @psipriscillavogt

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