Está muito em voga a ideia de fazer terapia utilizando ferramentas de inteligência artificial, como se o Chat GPT e seus semelhantes tivessem uma eficiência no tratamento psicoterapêutico. Ao meu ver isso é um reflexo do esvaziamento crítico dos nossos tempos, mas é um pouco mais complicado que isso.
Fazer terapia com IA é, antes de qualquer coisa, um produto do tempo atual, onde a IA está presente em quase todos, para não dizer todos, os níveis de interações com o mundo. Nós conversamos com assistentes que se passam por humanos, mas que são robôs muito bem treinados, vemos cálculos complexos sendo feito inteiramente por mentes inorgânicas e até mesmo pessoas tendo relacionamentos com robôs, sejam eles de amizade, amorosos e até terapêuticos. Partimos do ponto onde as pessoas sabem com o que estão interagindo e esse é um erro complicado nesse cálculo complexo. As pessoas em âmbito geral sequer sabem que os chatbots são, na verdade, grandes reservatórios de informações que são disponibilizadas de forma extremamente personalizadas ao usuário final. “Isso quer dizer o que, Luiz?”. Quer dizer que a sensação de conversar com uma “inteligência artificial” é por si só artificialmente gerada em quem a utiliza. Basicamente são dados organizados para responder, sem uma cabeça pensante consciente e sequer racional.
Mas somos seres que percebem o mundo a nossa volta e é na percepção que reside o X da questão. A percepção da terapia com IA gerar resultados se baseia na ideia de que ela está validando o que é dito, ela concorda com visões prévias de mundo, não desafia de forma real e não oferece o que a terapia tem como dois papéis fundamentais: Gerar autonomia e promover percepções disruptivas. Conversar terapeuticamente com uma IA é um reflexo da busca constante pela validação e pela ideia de que ficando em nós mesmos vamos ter uma sensação de validação externa, paradoxalmente. A IA vai validar uma fala absurda, vai ajudar a manter padrões de comportamentos e pensamentos disfuncionais, vai manter o senso crítico adormecido por não existir confrontação real de ideias prévias. Elas não vão fazer o movimento de “eu não havia pensado por esse prisma totalmente diferente e que me deixa extremamente desconfortável” e nem vão promover uma autonomia de encarar esse desconforto como parte de um crescimento funcional frente ao que a vida joga em nós.
No fim das contas a terapia com IA é um problema socialmente complexo que envolve o deslumbramento por ferramentas que podem ser muito úteis, mas que ainda não temos maturidade coletiva para utilizar. Ela mata textos incríveis ao padronizar em antíteses vazias, poda rimas pobres que podem se tornar riquíssimas através do erro, organiza um caos que pode ser extremamente fértil e criativo, mas que não encontra terreno para crescer. E ela não te ajuda a ter autonomia e muito menos te dá um tapa metafórico na tua cara sem vergonha como uma boa terapia baseada em uma ótima relação terapêutica faz. Um tapa carinhoso e funcional. Um tapa que é mais um empurrão pra frente do que um abraço frio que te prende a uma relação disfuncional.
Talvez possamos olhar para a IA como o que ela é, um sintoma e não um problema por si só. Sintomas de uma sociedade doente onde as relações não se baseiam nas trocas que geram desconfortos eventuais, em uma sociedade que elitiza a terapia e que ainda faz ser desequilibrada a relação entre remuneração digna ao profissional e as condições da maior parte da população ao atendimento psicológico de qualidade. Um sintoma seríssimo de que uma galera quer ser validada o tempo inteiro, o máximo possível e com o mínimo esforço e máximo estímulo sensorial.
O problema central não é a IA, é a forma como o ser humano aprende, desaprende e reaprende a se relacionar com o mundo. Você consegue se relacionar sem o hiperestímulo de ser fantástico, certo em todas as suas afirmações e perfeito? Se não consegue e não tem o interesse de conseguir, faça terapia com IA mesmo, é um direito que te assiste como adulto livre e responsável. Se tem interesse em confrontar quem é para crescer como ser humano em constante formação e criação de si mesmo, faça terapia com um ser humano imperfeito como tu, se puder.
Luiz Guedes é psicólogo logoterapeuta, especialista em Logoterapia e Psicologia Fenomenológica-Existencial, mestre em Psicologia e Saúde pela UFCSPA, gosta de nerdice e acredita que a construção humana e social passa por consciência de classe. Também adora dogs de roupinha e so quer sossego na vida. @diariodosentido