Coluna
Trabalho em si e por si

por Flávia Costa

A inteligência artificial cria trabalhadores artificiais ou potenciais?

Sempre que uma nova tecnologia ganha espaço, ela carrega consigo um medo recorrente: o de tornar pessoas e profissões obsoletas. Foi assim na Revolução Industrial, quando máquinas passaram a ocupar o lugar do trabalho manual, e volta a acontecer agora com a ascensão da inteligência artificial. A pergunta, ainda que nem sempre verbalizada, é direta e inquietante: meu trabalho vai deixar de existir?

Esse debate, porém, costuma partir de um equívoco. A inteligência artificial não nasce, em sua essência, para substituir o ser humano, mas para otimizar processos. O problema é que, nos últimos anos, transformamos a otimização em um valor quase absoluto, como se tudo precisasse ser mais rápido, mais produtivo e mais automatizado. E nem tudo deve ser.

Há dimensões do trabalho que, quando excessivamente otimizadas, perdem qualidade, profundidade e sentido. Relações, decisões complexas, cuidado, criação e estratégia não se beneficiam de uma lógica puramente mecânica. Ao contrário: quando tudo é reduzido à eficiência, o resultado muitas vezes é um serviço que responde, mas não resolve; que entrega, mas não se conecta.

Isso não torna a inteligência artificial uma vilã. Ela pode, sim, ser um recurso profissional valioso, desde que usada com critério e consciência. Costumo dizer que ferramentas como o ChatGPT devem ocupar o lugar de um estagiário, não de um analista. Elas organizam informações, agilizam tarefas operacionais, auxiliam na estruturação de ideias. Mas não interpretam contextos complexos, não fazem leitura de cenário, não assumem responsabilidade nem tomam decisões éticas.

Basta um exercício simples para perceber os limites dessa automação. Pense você mesmo: quantas vezes já ficou frustrado ao tentar resolver um problema, buscar uma informação ou esclarecer uma dúvida sobre um serviço e se deparou apenas com respostas automáticas, genéricas, que não dialogam com a sua necessidade real? A sensação de não ser compreendido, de “falar com ninguém”, tem se tornado cada vez mais comum. O processo funciona, mas a experiência falha.

Essa insatisfação cotidiana revela algo importante: há aspectos do trabalho que exigem presença humana. Escuta, flexibilidade, adaptação e leitura fina da demanda não são atributos programáveis.

Quando a tecnologia ocupa um espaço que deveria ser de relação, ela deixa de ser apoio e passa a ser obstáculo. Talvez o ponto central dessa discussão seja reconhecer que a inteligência artificial nunca será um ser humano. E é justamente isso que sustenta as profissões. O operacional pode — e muitas vezes deve — ser automatizado. Mas o criativo, o estratégico e aquilo que responde às necessidades reais da vida e do mercado continuam sendo profundamente humanos. Empatia, senso crítico, capacidade de conexão e responsabilidade não são replicáveis por algoritmos.

A ameaça, portanto, não está na tecnologia em si, mas na ideia de que pessoas podem ser reduzidas a funções mecânicas. Quando o trabalho é visto apenas como execução, qualquer máquina parece suficiente. Quando ele é compreendido como criação, relação e escolha, o humano permanece insubstituível.

Talvez a pergunta mais produtiva não seja se a inteligência artificial cria trabalhadores artificiais, mas se estamos dispostos a formar trabalhadores mais conscientes do seu valor humano. Porque é exatamente isso que nenhuma tecnologia consegue otimizar.

Flávia Costa é psicóloga clínica, logoterapeuta em formação e mentora de carreiras. Natural do Rio de Janeiro, tem como missão disseminar a aplicabilidade da Psicologia no dia a dia. @flaviacpsi

Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Propósito