A vitrine é o primeiro rascunho na interação do ser humano. É a ponta do iceberg, a parte que a gente doma, organiza, passa um pano, dá um brilho e coloca em exposição como quem diz “isso aqui sou eu, ou pelo menos a parte de mim que eu dou conta de mostrar sem tremer”. Porque ninguém nasce pronto pra ser visto. Ela é o pedaço editado da existência, o corte suave que cabe no olhar rápido, no encontro casual, no feed que passamos de forma praticamente automática. A gente se acostuma a viver por esse reflexo, a escolher o enquadramento, calibrar a luz, ensaiar a fala, como se a vida coubesse inteira nesse pequeno vidro que separa o que mostramos do que realmente carregamos.
O problema, sim meus amigos, é um problema real, é que às vezes a gente acredita demais no próprio brilho vazio desse vidro e das luzes que nós mesmos instalamos. Começa a morar na vitrine. Começa a existir só naquilo que o outro consegue perceber. Um sorriso posado aqui, uma opinião chapa branca ali, uma estética que convence mais rápido do que a própria biografia. Vivemos um tempo em que o mundo gira depressa, onde as pessoas passam diante umas das outras como quem corre para não perder horário, notícia, vaga, sentido. Nesse ritmo, a vitrine vira o bastante. Pelo menos é o que uma galera quer acreditar pra não ter o incômodo existencial de viver. É compreensível, só não é funcional.
A gente olha pro outro pela vitrine e acha que viu tudo. O que é um equívoco tão comum quanto disfuncional. Porque ninguém vê o trauma que não foi contado. Nem o medo que não coube na legenda. Nem a história que não chegou a virar livro. O outro é muito mais do que o que ilumina o vidro. Só que a vitrine iluminada engana fácil enquanto oferece conclusões precipitadas para quem não tem tempo de se aprofundar em algo mais. E quem tem tempo hoje em dia, meus bacanos? Tá complicado. Olhar fundo requer tempo e tempo virou artigo de luxo emocional, psicológico e social.
Eu não vou fingir que tenho a solução para a aceleração sistemática de um mundo que trata a todos nós como se estivéssemos em um moedor de carne ou correndo dentro de uma roda de hamsters, a ideia é que a gente consiga ter um vislumbre de que entrar na loja é muito mais humano do que ficar olhando apenas uma vitrine bonita. Muito mais do que uma performance para nós mesmos e principalmente para esse moedor de carne.
O ser humano existe nas prateleiras meio tortas com uma caneca feita a mão e com imperfeições que fazem com que ela se torne a tua caneca preferida. Existe na pechincha que só possível ao conversar com o dono da lojinha estranha do bairro, que apesar de meio escura e úmida tem o seu charme. Existe na capacidade de ver além da vitrine iluminada de nós mesmos e olhar para o que temos guardado nos nossos porões, no fundo da gaveta, naquela estante herdada de um parente que nem sabemos exatamente quem foi, mas que está conosco desde que nos conhecemos por gente.
A existência de cada ser humano é o mesmo que se aprofundar em uma feira de cacarecos, sem vitrines vistosas de shopping de classe média alta. A feirinha pode ser extremamente desafiadora em seus garimpos e interações sociais duvidosas em alguns pontos, pode ser mais feia, mas, com certeza, é muito mais real. E ser real é só o que temos para viver de forma coerente com quem somos. Isso e a organização de classe, óbvio, mas aí é outro papo.
Todos temos vitrines, meus consagrados, mas só ter vitrine é reduzir a si mesmo a um monte de luzinhas piscando e uma forma vazia de existir. Como diria o poeta Alexandre Magno Abrão, o famoso Choris: “Muita gente tem forma, mas não tem conteúdo”. Não faça o Choris chorar, não seja só vitrine quando tem muito mais aí dentro desse tumtumzinho.
Ou seja e lide com a sua existência apequenada, faça o que quiser né, está nas tuas mãos decidir, isso é ser adulto funcional, ser livre e ser responsável.
Luiz Guedes é psicólogo logoterapeuta, especialista em Logoterapia e Psicologia Fenomenológica-Existencial, mestre em Psicologia e Saúde pela UFCSPA, gosta de nerdice e acredita que a construção humana e social passa por consciência de classe. Também adora dogs de roupinha e so quer sossego na vida. @diariodosentido