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Inteligência Artificial e Terapia: entre o espelho e o encontro humano

Lorena Bandeira

A cultura contemporânea tem promovido um deslocamento silencioso, porém profundo, na forma como os indivíduos constroem sua identidade. Aquilo que antes se organizava a partir de valores, vínculos e projetos de vida passa, progressivamente, a ser mediado por objetos, marcas e experiências adquiridas. Consumir deixa de ser apenas uma resposta a necessidades práticas e passa a funcionar como uma linguagem por meio da qual o sujeito comunica quem é, ou quem deseja ser.

Esse movimento não ocorre de forma isolada, mas é sustentado por uma lógica social que associa valor pessoal à capacidade de adquirir, atualizar e exibir. Nesse contexto, a identidade torna-se instável, dependente de constantes reafirmações externas. O indivíduo não apenas consome objetos, mas passa a consumir versões de si mesmo, sempre provisórias e sujeitas a substituição.

O consumo como tentativa de organizar o vazio

•Do ponto de vista existencial, o consumismo pode ser compreendido como uma tentativa de lidar com experiências internas de vazio, insegurança ou falta de direção. Em uma sociedade marcada pela aceleração e pela fragilidade dos vínculos, torna-se mais difícil sustentar perguntas fundamentais sobre sentido, propósito e finitude.

O consumo oferece uma resposta rápida e socialmente legitimada. Ao adquirir algo, o sujeito experimenta uma sensação momentânea de completude, como se fosse possível reorganizar internamente aquilo que está difuso. No entanto, essa organização é transitória. O alívio é breve, e a sensação de falta tende a retornar, frequentemente de forma ainda mais intensa.

Esse ciclo não indica fragilidade individual, mas revela uma dinâmica cultural na qual o mercado se apresenta como mediador de questões que, em sua essência, são existenciais.

O cérebro do consumidor: como pensamos, sentimos e decidimos comprar

As decisões de consumo não são puramente racionais. Elas são fortemente influenciadas por processos automáticos do funcionamento cognitivo e emocional. O sistema de recompensa do cérebro, especialmente os circuitos mediados pela dopamina, desempenha um papel central nesse processo. A antecipação da compra gera excitação e expectativa, muitas vezes mais intensas do que a satisfação obtida após a aquisição.

Além disso, diversos vieses cognitivos influenciam nossas escolhas de maneira silenciosa, orientando comportamentos que percebemos como livres, mas que são altamente previsíveis.

Principais vieses envolvidos no consumo:

  • Viés de escassez

Produtos percebidos como limitados tendem a ser mais valorizados, aumentando a urgência da compra e reduzindo o tempo de reflexão.

  • Efeito manada (prova social)

A tendência de seguir o comportamento de outras pessoas faz com que escolhas sejam orientadas pela popularidade, e não necessariamente pela necessidade ou valor pessoal.

  • Ancoragem

O primeiro preço ou referência apresentada influencia a percepção de custo-benefício, mesmo que seja arbitrária.

  • Recompensa imediata

Há uma tendência a priorizar prazeres rápidos, o que dificulta decisões que exigem planejamento ou adiamento da satisfação.

  • Aversão à perda

A ideia de “perder uma oportunidade” pode ser mais mobilizadora do que o ganho em si, levando a decisões impulsivas.

Esses mecanismos são amplamente explorados por estratégias de marketing, que constroem narrativas capazes de mobilizar emoções, criar urgência e reduzir o espaço para a reflexão crítica.

Entre comparação e insuficiência: os efeitos subjetivos do consumismo

O consumismo não se limita à aquisição de bens, mas se articula com processos subjetivos mais amplos, especialmente aqueles relacionados à comparação social. Em um ambiente constantemente atravessado por imagens idealizadas de sucesso, beleza e felicidade, o indivíduo passa a se avaliar a partir de parâmetros externos, frequentemente inalcançáveis.

Essa dinâmica contribui para a construção de uma sensação crônica de insuficiência. Independentemente do que se possui, há sempre algo que falta, algo que precisa ser atualizado ou melhorado. A identidade torna-se dependente de validação externa, o que fragiliza a autoestima e intensifica estados de ansiedade e insatisfação.

Nesse sentido, o sofrimento psíquico associado ao consumismo não decorre apenas do excesso, mas da lógica de comparação e inadequação que o sustenta.

Minimalismo: menos como caminho para mais sentido

O minimalismo tem sido frequentemente apresentado como uma resposta ao excesso, mas sua potência não reside na simples redução de objetos. Trata-se, sobretudo, de uma proposta de reorganização da relação com o que se consome e, por consequência, com o próprio modo de viver.

Ao questionar o que é essencial, o minimalismo convida o indivíduo a entrar em contato com seus próprios critérios de valor. Esse movimento exige autocompreensão e diferenciação, na medida em que implica reconhecer o que faz sentido para si, independentemente das expectativas externas.

Princípios centrais do minimalismo aplicado à vida cotidiana:

  • Priorizar o que tem valor existencial, e não apenas utilitário ou simbólico
  • Reduzir excessos que funcionam como distração ou anestesia
  • Desenvolver escolhas mais conscientes e menos impulsivas
  • Valorizar experiências e relações em detrimento do acúmulo material
  • Sustentar o suficiente, em vez de perseguir constantemente o mais

Essa perspectiva não propõe a negação do consumo, mas a sua ressignificação. Consumir deixa de ser uma resposta automática à falta e passa a ser uma escolha alinhada a valores.

Do automático ao consciente: a reconstrução da relação com o consumo

Reconfigurar a relação com o consumo não é um processo imediato, tampouco simples. Ele exige o desenvolvimento de recursos internos que possibilitem interromper padrões automáticos e sustentar decisões mais deliberadas. Isso envolve tanto dimensões cognitivas quanto existenciais.

Do ponto de vista cognitivo, implica reconhecer os próprios padrões de decisão, identificar gatilhos emocionais e ampliar a capacidade de autorregulação. Do ponto de vista existencial, exige a disposição para confrontar o vazio sem preenchê-lo imediatamente, abrindo espaço para a construção de sentido.

Esse processo pode ser compreendido como um deslocamento progressivo. Sai-se de uma lógica reativa, na qual o consumo responde a desconfortos internos, para uma lógica intencional, na qual as escolhas são orientadas por valores e propósitos mais amplos.

Uma questão de sentido, não apenas de consumo

A discussão sobre consumismo frequentemente se concentra na quantidade, mas talvez a questão mais relevante seja qualitativa. Não se trata apenas de quanto se consome, mas do lugar que o consumo ocupa na organização da vida psíquica e existencial.

Quando o consumo assume a função de regular emoções, definir identidade e preencher vazios, ele tende a se tornar problemático, independentemente do volume. Por outro lado, quando é integrado de forma consciente, pode coexistir com uma vida orientada por sentido, vínculos e projetos que transcendem o acúmulo.

A questão que permanece, portanto, não é se devemos consumir mais ou menos, mas se estamos utilizando o consumo para evitar perguntas que exigem outro tipo de resposta.

E talvez seja justamente nesse ponto que reside o desafio contemporâneo. Recuperar a capacidade de sustentar essas perguntas, mesmo sem respostas imediatas, pode ser um passo fundamental para reconstruir uma forma de existir que não dependa exclusivamente daquilo que pode ser comprado.