Coluna
Viagem na babagem

por Camila Aagesen

Destino perfeito pra você ou você perfeito pro destino?

Num (novo) mundo dominado pelas redes sociais com informações cada vez mais personalizadas na palma das nossas mãos, viajar de forma verdadeira com nossas preferências parece cada vez mais difícil. Ainda mais numa era que não sabemos mais o que é nossa preferência e o que foi “sugerido” pra gente.

 

Oi, eu sou a Camila, viajante em tempo integral e uma curiosa da mente humana. Fui convidada pra gente bater um papo sobre viagens, e adorei! Meu assunto preferido! O tema dessa edição é Autenticidade e achei ótimo pra gente pensar sobre como ser autêntico num tempo em que todo mundo quer as mesmas coisas.

 

Se por um lado as redes sociais, e a internet num geral, nos mostram lugares novos para conhecer e inspirar, por outro lado acaba fazendo uma curadoria própria, macro e micro. Me explico: Macro no sentido de negócios, o que deve ser mostrado agora ou não para um determinado público. E micro no sentido de que cada um de nós já é estudado pelos algoritmos há um tempo suficiente dele poder ofertar pra gente só o que a gente “gosta”.

 

Eu estava em Tóquio, capital do Japão, 3 meses atrás e reparei que alguns restaurante eram muito cheios, com filas gigantescas nas portas. Observando um pouco mais de perto, consegui observar a diferença entre eles. Em alguns a fila era predominantemente de pessoas com fenótipos asiáticos, outro com pessoas com fenótipos ocidentais. Fui perguntar para o guia que me respondeu sem muito interesse que aqueles eram lugares famosos no Instagram e Tiktok.

 

Isso explica a diferença dos públicos de cada fila, uma vez que os algoritmos nos mostram conteúdos específicos de pessoas da sua região, ou com a mesma língua e interesses. Fui convidada para ir em um desses restaurantes. O lugar apareceu numa série da Netflix e ficou famosíssimo. Meus amigos chegaram mais de uma hora antes do lugar abrir para ficar na fila. Quando eu cheguei a fila era realmente gigantesca. Entramos e pedimos, o que o show sugeria.

 

O serviço foi eficiente. Era uma barraca de rua, então tínhamos mesas compartilhadas, mas não tínhamos bancos. A comida estava boa, e a conta veio alta. Agradeci pelo convite e fui embora pensando se qualquer um de nós teríamos ido se não fosse pelo sucesso da série, e se teríamos pedido aquela comida ou não (na verdade, a discussão poderia ir mais longe

pensando sobre se eles ofertariam outras coisas ou se já ofertam o que foi colocado no show).Claro que temos que pensar também no papel do marketing, e como é importante para um estabelecimento se manter aberto, mas pelo que tenho observado estamos frequentando muitos lugares por que “está todo mundo indo” ou “a foto fica boa”.

 

Quantos memes não vemos todos os dias retratando em tom de piada casais que chegam em frente a um monumento turístico, tiram uma foto, olham um para o outro e falam algo como “ok, vamos comer em algum lugar?” ou “ok, vamos beber?”, brincando com a ideia de que só foram “ticar a lista”, tirar a foto que precisavam pra mostrar que foram ali. Acho que isso ilustra bem onde estamos indo com o mercado de turismo, e veja bem querido leitor, eu não estou aqui pra dizer se está certo ou errado.

 

Mas pra gente começar a realmente pensar: Vamos trabalhar o ano inteiro, pegar a única folga que temos, para fazer algo só porque todo mundo tá indo? Ou por que aquela coisa inundou nossas redes por semanas? Para provar “autenticidade” ouvimos influenciadores (ou nossos amigos) dizendo coisas como “eu vinha antes de ser modinha” ou “era tudo mato quando eu fui a tal lugar”. Seria injusto eu falar que estamos perdendo nosso poder de escolha só por culpa das redes sociais, claro que sempre fomos influenciados pelo marketing, promoções, propaganda, revistas, jornais, outdoors, televisão.

 

Então talvez a ideia aqui seja culpar menos o externo e olharmos pra nós mesmo. Você sabe como gosta de passar suas férias? O que gosta de comer ou que tipo de lugar gosta de conhecer? Minha dica seria: use os algoritmos a seu favor, afinal são máquinas de análise de dados e conhecem bem a gente, use essas informações para fazer a sua pesquisa interior, comece por ai.

 

Talvez a gente vá descobrir que nem queria tanto assim ficar naquela fila de uma atração por horas pra ter a mesma foto que todo mundo tirou, ou talvez, vai descobrir que era exatamente o que queria, quem sabe né?

Camila Aagesen é viajante profissional, se encontrou na escrita e comunicação, virou contadora de histórias, gosta mais de frio do que de calor, apesar de adorar (curtas) temporadas em ilhas quentes. Com a alma aventureira se desfez de sua base em São Paulo capital em 2018 para conhecer lugares e histórias. @camilanomade

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